Braço azul
Ou uma apresentação em forma de adenda
“não ler é como ir ver o mar
e não olhar para o mar”— Joaquim Castro Caldas
Nunca vivi rente ao braço azul do meu país, mas se me perguntarem tenho casa lá.
De há uns anos para cá, licenciava-me a 15 minutos da costa. Era tentador trocar (e troquei, inúmeras vezes) as cadeiras de madeira lascada pela relva que antecede a areia fina. Lia qualquer livro que me tivesse parado às mãos, sentia o sol que ardia na nuca, respirava a maresia. Foi assim que fiz uma boa parte da minha educação.

Escrevia como um exercício de derrame.
Sempre senti dificuldade em discernir a minha utilidade e temia que a minha honestidade (ou a mínima versão da mesma à qual eu me permitia) não fosse o suficiente para me justificar. No mar, eu tentava submergir no absurdo, a aprender a respeitá-lo, mas não sabia ainda como parar de viver com medo de tudo.
Algures na minha pegada digital é possível encontrar vezes em que eu me convencia estar a ultrapassar o temor e a culpa. Existem textos neste éter que eu teria de admitir relutantemente que sim, fui eu que os escrevi. Atrapalha-me a ideia de ser vista, mas mesmo assim resiste ainda uma vontade irresoluta e compulsiva de contar tudo.
Criei este Substack há três anos e neles vi pouco a coragem de publicar, incapacitada pela memória de que, quase sempre, os textos que escrevo e eu envelhecemos em direções opostas.
É sempre mais seguro começar com uma admissão de fracasso. Esta é a minha.
Quando escrevia na praia, preferia os dias rudes em que o mar e o céu embraveciam. Chamavam menos pessoas, podia estar sozinha.
Hoje eu não quero o mar só para mim, nem tenho medo que ele me olhe de volta. A maresia é expansiva, infiltra-se em nós pelos sentidos, é de todos. A escrita é igual.
Esta maresia, a que lês neste momento, compromete-se a pensar o pulso da palavra (que ainda bate, vigorosamente) e a relação simbiótica entre o consolo e a inquietação que a escrita e a leitura nos oferecem.
Entretanto, não sei se sou boa ou má, útil ou não. Imploro apenas para ser verdadeira.


