Um lugar à mesa
Sobre dores de crescimento e o destino, o destino e fazer livros, fazer livros e salvar o mundo.
Uma das dores de crescimento que mais me custa é a de escolher o lugar à mesa.
Não sou a pessoa mais velha, não sou a anfitriã, também não sou necessariamente convidada, e já não me posso reduzir mais à triste mesa onde as crianças imploram por poder sair. Ninguém me dá um palpite sequer de onde ficar — mas é certo que haverá indignação se me puser no sítio errado, aquele que eu acho que todos os adultos conhecem menos eu. Estou a tentar aprendê-lo desesperadamente. Quero muito agradar.
Nunca fui criada, pelo menos não da maneira expectável. O pouco da moral que me tentavam pôr à boca, eu cuspia. Servia-se muito o tenebroso faz o que eu digo, não faças o que eu faço. Eu cuspia porque lia nos livros que era de se cuspir e os livros são escritos por adultos e era nesses adultos dos livros que eu depositava toda a minha confiança.
Sou da idade do século e fui feita da cidade. Pouco apareci na aldeia em criança. Não sei distinguir uma erva daninha de uma medicinal, mas interesso-me o quanto posso por ser útil ao mundo. Não se enganem: podia não aparecer nas montanhas e nos campos com regularidade, mas cresci consciente do fim iminente e catastrófico de toda a vida. O ânimo que veio com ter sido ensinada que foi a minha geração a escolhida para salvar o mundo, tornou-se assim que a idade adulta espreitou, o peso insuportável de ter sido a minha geração a escolhida para salvar o mundo. O ar que eu respiro será sempre o do tubo de escape.
A vida na cidade é agreste, os adultos empurram-te para chegar ao carro e aceleram nas passadeiras. É assim desde que me lembro, mas eu acreditava que todos nos iríamos tornar magicamente benevolentes. Via-os na televisão a assinar pactos e acordos que nos dariam tempo suficiente para reverter ou pelo menos despiorar o estado a que chegamos. Deram-se até 2050. Imaginava-me em 2050, Adulta, — com “A” maiúsculo de experiência e graça — e regozijava na sorte que me esperava nesse futuro brilhante, por ter pertencido ao mundo que fez a diferença. Quando me imaginava Adulta, tinha a certeza que por esse ano longínquo já estaria a colher os frutos roliços e abundantes do planeta que salvámos contra todas as evidências. Ainda faltam 25 anos, mas a minha esperança já não é tão inexperiente. Havia tanto no mundo que estava errado. Porém, na minha cabeça a conclusão para esse tanto confluía sempre para a mesma conclusão: basta sermos todos mais simpáticos!
O que quer que eu tenha aprendido de simpatia foi nos livros. As pessoas que fazem os livros preocupam-se. E era esse o lugar que eu queria ocupar, ignorando que as pessoas não leem livros, não veem com muitos bons olhos as pessoas que ainda querem saber de livros ou (o que tive de aprender da pior maneira) que não basta fazer livros para querer saber dos livros ou de salvar o mundo.1 O otimismo que eu carregava era obstinado. Acreditava que seria realmente possível mudar o mundo imediato através da palavra. Era obcecada com a empatia (mas, confesso, não a entendia muito bem) e acreditava que estávamos mesmo todos atrás dela, de uma maneira ou de outra. Chocava-me acreditar tão vorazmente numa realidade e ver constantemente outra. Chocava-me querer tanto ser de uma maneira e apanhar-me a ser de outra. Afinal há muito mais em jogo.
Olho menos incrédula para as crueldades miúdas do dia-a-dia. Lembro-me das doses proverbiais do faz o que eu digo e percebo que não era só em casa, era no mundo, porque quem me ensinava em casa fazia parte do mundo, como toda a gente que só quer sobreviver face ao abundante hostil. O mundo imediato parece ser a única coisa que temos. O mundo imediato aproxima-se quente e debilitado ao fim. De qualquer forma, ainda acredito numa espécie de mundo distante porque se não o fizesse não me adiantava escrever.
Na hora de fazer a mesa, aqueles que conscientes estendiam a toalha e espalhavam os talheres, suspiram o quão mais fácil a vida era, partilham comigo a nostalgia como quem partilha o rebuçado com a criança que se queixa da dor de dentes. Mais tarde com a refeição devorada asseguravam-me da nobreza e a virtude de arrumar. Não me mostravam como, tudo ficava no abstrato e eu tenho propensão a enamorar-me pela metafísica então consentia o mistério e ansiava por resolvê-lo. Hoje em dia começo a suspeitar que não foram generosos comigo. Que afinal de contas sempre houve um lugar à minha espera.
Começo a suspeitar que finalmente me convidaram para a mesa dos crescidos para a limpar.
Algumas sugestões #1
Um álbum intemporal ✦✧ uma canção insurgente ✦✧ um livro-álbum intempestivo
Álbum : A Seat At The Table, Solange (2016)
A Solange sempre teve um lugar à mesa. Ela convida-te a juntares-te a ela.
Canção : Under the Table, Fiona Apple (2020)
Dão chutos à Fiona por baixo da mesa. Mesmo assim, ela não se cala.
Livro-álbum : Kitchen Table Series, Carrie Mae Weems (1990)
A Carrie mostra-nos que é na mesa da cozinha que o epicentro da vida acontece.
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Acho necessário ressaltar que, enquanto escrevo esta queixa formal endereçada à indiferença dos cosmos, estou na biblioteca, rodeada de livros e de pessoas que os leem. A palavra talvez poderá ser a única esperança a que me permito.






Muito bonito <3
Que texto incrível, incrível! Acho que não havia melhor forma de começares ❤️