Errar de propósito
Falhas de comunicação e o problema da esperança mal aplicada
Há cerca de dois anos, aconteceu algo que não era necessariamente impossível, mas raro: recebi uma mensagem no LinkedIn.
Abri o perfil. A foto a preto e branco de uma jovem mulher que sorria delicadamente. O título de Data Analyst (que ela já não exercia, mas que continuava exposto), as mais de 500 conexões, o percurso da universidade ao estágio, de um emprego para o próximo. A descrição do primeiro emprego era totalmente inócua. A descrição do segundo, não tanto.
“Profissional autónoma” lia-se. No entanto, esse trabalho autónomo não era em regime freelance, como seria plausível inferir, mas sim ao serviço de uma empresa e uma empresa apenas: Global Business Revolution ou GBR. O que não se lia, pela sua total ausência, era qualquer descrição sobre o que isso significava.
A mensagem que ela me enviou consistia numa gravação de áudio que eu posso apenas descrever como fluff auditivo: alguns lugares-comuns sobre como cada vez mais temos de ser proativos, a importância do desenvolvimento profissional em conjunção com o pessoal. Disse-me que pelo meu perfil, eu parecia estar no momento ideal para conhecer novas perspetivas e oportunidades. Os alarmes na minha cabeça soaram imediatamente.
Ao revisitar esta interação, percebo agora que a minha resposta inicial foi surpreendentemente extensa. Eu soube imediatamente que esta oportunidade não era real. Ainda assim, e apesar da vaga e obviamente suspeita (falta de) explicação sobre o projeto, escolhi abrir a caixa. Tinha uma ideia do que me esperava, não estava cega nem esperançosa por qualquer outro desfecho senão alguma espécie de confronto. Na verdade, sentia-me particularmente mesquinha. Minutos antes da reunião, pensei em gravar e nas várias formas que poderia utilizar para expor a empresa. Não tive coragem. Apesar de saber que tinha uma profissional autónoma a tentar enganar-me (que precisava de me enganar) não consegui não sentir algo parecido com pena. De qualquer forma, não sei se ela conhecia o risco que corria, mas a verdade é que não ligou a câmara uma única vez e eu falei com um PowerPoint durante uma hora. Depois dos cumprimentos e formalidades sociais, ouvi a sua apresentação.
Em nenhum momento da introdução foi mencionado o nome da empresa, o projeto, ou a descrição da vaga. Mesmo assim, não vi a reunião como um desperdício do meu tempo, mas mais como um exercício. Confessadamente, tinha erroneamente levado a interação para o lado pessoal. Perguntava-me se eu aparentava ser um alvo assim tão fácil. Num dos post-its em que ia anotando o que mais me sobressaía na conversa, escrevi confusa e melodramaticamente: “Porquê eu?”.
A organização, ela começou por explicar, oferecia “soluções de investimento” e era extremamente generosa: planeava viagens para quem aderisse, promovia literacia financeira, ensinava pequenos empreendedores a investir o seu dinheiro. A organização tinha uma reunião/festa sobre histórias de sucesso todas as semanas. A organização era tão inspiradora, tão íntima, tão progressiva, tão liberal, tão panem et circenses. Se eu estivesse interessada em beneficiar da sua bondade teria de investir apenas 75$ (sim, dólares) por mês.
Eventualmente, ela explicou-me o plano de compensação da GBR (finalmente, podíamos mencionar o nome da empresa) e eu lembro-me de ter pensado que nenhum dicionário definiria “esquema de pirâmide” melhor do que ela naquele momento.
O gráfico que ela apresentou, referente à relação entre o recrutamento e a compensação, era composto por colunas cujo tamanho ia ascendendo em concordância com a quantidade de pessoas recrutadas e a remuneração aplicável. Figurava literalmente a face de um triângulo. Entretida por essa ajuda visual, no fim da apresentação pedi-lhe para voltarmos a esse mesmo slide. Não sei porquê, tinha esperança de que ao olharmos para ele juntas, ela iria conseguir ver o mesmo que eu. Perante a sua falta de reação perguntei: «Não me leves a mal» - como se fosse possível - «mas o que é que distingue isto de um esquema de pirâmide?». «Primeiramente, um esquema de pirâmide é ilegal», respondeu.
The Office (EUA), temporada 2, episódio 19
Este não é um texto sobre ser a pessoa superior ou mais virtuosa. Desperdicei o tempo dela por despeito. Fui conflituosa, no limite, rude. O que eu sentia era uma mistura estranha entre irritação e pena, não plenitude. Mesmo assim, existia algum nível de compreensão profunda no cerne existencial: a ambição, a desilusão com o convencional e com a rifa que nos calhou. Era uma insatisfação honesta. Sim, eu poderia ter sido um alvo muito fácil. A génese das nossas vidas adultas coincide com uma crise económica, catástrofes climáticas, protofascismos, genocídio em plena vista. O sentido de urgência é real.
Isto também não é um exposé. A organização já foi exposta várias vezes. Uma rápida pesquisa no Google inclui um número de artigos e fóruns acerca do caráter duvidoso da empresa. Numa thread do Reddit, alguém que partilhou uma situação muito semelhante à minha comentou: “senti que ganhei”. Essa foi igualmente a minha reação imediata. Quando oiço de novo os áudios que mandei à minha irmã imediatamente após a reunião, sinto-me constrangida, o tom da minha voz tão presunçoso. Mas o que é que ganhámos exatamente? O que é que havia para ganhar? Desde essa reunião em que nenhuma de nós conseguiu convencer a outra, o perfil do LinkedIn da minha recrutadora ainda indica que ela não saiu da organização. Pergunto-me se havia uma maneira realista de lhe fazer mudar de ideias.
Não me recordo, no entanto, se o que ela partilhou sobre a sua história pessoal era assim tão identificável. O que me lembro é vago e estou consciente de que poderia muito bem não ser totalmente verdade. Infelizmente, a recordação mais vívida que tenho é de estar à espera do momento mais oportuno para a confrontar.
Em “Fences: A Brexit Diary”, um ensaio sobre o resultado do referendo que dividiu ingleses entre ficar ou sair da União Europeia, a autora Zadie Smith escreve sobre a surpreendente expressão da classe trabalhadora nos resultados a favor de abandonar a União Europeia. Acerca desta surpresa, ela dá destaque ao solipsismo generalizado dos seus opositores que não conseguiu prevenir o desfecho inevitável por não saber discutir o assunto para além da dicotomia “certo/errado”.
Na noite anterior à minha viagem para a Irlanda do Norte, jantei com amigos, intelectuais do norte de Londres. [...] Estavámos a considerar o Brexit. Mas parece que afinal não o estávamos a considerar muito bem porque nenhum de nós, em nenhum momento, acreditou que ele poderia vir a acontecer. Era tão obviamente errado e nós estávamos tão obviamente certos - como é que poderia suceder?1
A recrutadora com quem falei tinha tentado o percurso convencional. Eu não sei o que falhou e quando é que ela o percebeu. E o que eu hoje percebo ter sido o meu maior erro foi a minha absoluta falta de curiosidade. “Ter razão” foi a minha única abordagem, mas descobri que “ter razão” por si só não é um método. “Ter razão” no mundo pós-verdade é uma arma facilmente erodível.
Como lidar então com a vulnerabilidade da frustração e esperança mal colocadas?
Smith coloca a questão de outra forma: “Numa atmosfera de hipocrisia e fraude, terá a classe trabalhadora a obrigação de ser ‘superior’ quando tudo à sua volta é corrupção e venalidade?”2
Talvez o primeiro passo para muitos seja cometer um erro de propósito. Como dar então os passos seguintes para o corrigir?
Original: “The night before I left for Northern Ireland, I had dinner with old friends, north London intellectuals. [...] We were considering Brexit. But it turned out we couldn’t have been considering it very well because not one of us, not for a moment, believed it could happen. It was so obviously wrong, and we were so obviously right - how could it.”
Original: “In this atmosphere of hypocrisy and deceit, should the working-class poor have shown themselves to be the ‘better man’ when all around them is corruption and venality?”




